segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

O Desencantador

Chega-se a esta idade quando se chega
e deita-se contas à vida. Um homem ha-
bitua-se a tanta coisa, até a este exercício
de lavar a intimidade no tanque sem fundo
da escrita. E assim se vai descarnando
a poesia, de desafafo em desabafo, até
à ruína final. Que parceiros para este
jogo das verdadades, para a pontada aguda
entre o riso e o siso. Esbanja um homem
o melhor de si em camas agrestes, em
copos de fel, em mesas de dados
para chegar a este ponto e concluir
que não fez sequer metade do que ameaçou,
que só tem cães vorazes e cobardes
a rondarem-lhe as canelas, que o tão
decantado discurso é apenas o sítio
onde esconde a cara cansada como na infância
numas sais velhas a um canto da casa.
Só os comboios nocturnos a apitarem
pontuais lá em baixo se constituem como
prova de que existe outra realidade
para além do azedume das palavras perfiladas.
Nem sequer tenho a coragem de chegar ao osso.
Porque dói. Porqe deve haver uma ética,
um fingimento nisto tudo. Mas às vezes
o fingimento maior é ser capaz de não fingir,
de cair na noite sem alarido e acordar expurgado
de toda a merda sitiante, do fumo e do escárnio.
Peço desculpa do incómodo e, já agora,
da humildade com que me desculpo Não há
desespero que valha um bom poema. Retratos de
mim faço-os para consumo próprio e alegro-me
quando fico por aqui.


José Jorge Letria, in «O Desencantador de Serpentes», 1984, p. 17.-18.

2 comentários:

nandacml disse...

Olá!!!!
Este poema traz muito azedume, muito rancor.
Nesta época Natalicia que tal algo mais sublime. Gosto mais
Um abraço

AntonioPacheco disse...

Eu também gosto muito do Natal... do que ele encerra, do seu conteúdo...o Natal é um símbolo de nascimento, portanto de alegria, vida, essencialmente, vida!
Há Natal todos os dias para mim... mas também há poemas assim... que falam da vida!
Mas... épocas à parte é um excelente poema que na altura exprimiu um sentimento. Algum azedume, certo, mas não rancor. Não diz comigo.
Fico contente pela visita e pelo comentário... percebeu!
Fica prometido um mais propício para a época.