terça-feira, 13 de março de 2007

Falar de Zeca Afonso

Olá. Escrevo hoje para responder a um desafio do Professor António Pacheco. E para escrever é preciso tema. E temas, há muitos... Há é falta de argumentos para os temas... Enfim, é melhor deixar-me de trocadilhos.
Hoje apetece-me falar de José Afonso (mais comummente conhecido como Zeca Afonso). E ao falar deste artista bem conhecido é quase impossível dissociar da "carga" de cantor de intervenção que ele carrega. E isso, no meu entender, estraga a relação do público (do GRANDE público), com a obra do autor e cantor. Diria que esse rótulo que lhe aplicaram é como uma "barreira" ou pior, um "vírus" que dificulta o acesso à sua obra.
Eu posso dizer que já ouvi e continuo a ouvir muitos autores, muitos estilos, muitas formas de música, mas José Afonso era para mim a "Grândola Vila Morena" e muito pouco mais...
Agora que fez 20 anos que faleceu, e que muita gente se tem lembrado do Zeca, também eu quiz experimentar, e dei-me ao trabalho de ouvir a sua música, preenchendo uma lacuna nos meus ouvidos.
Fiquei muito supreendido. Senti o sabor do nosso povo na sua voz, nas suas melodias e nos instrumentos populares que utiliza. Senti uma veia poética como não vejo em língua portuguesa! Tenho mesmo que admitir uma coisa: é saboroso ouvir cantar português assim!
Parece que não fui só eu a sentir estas novas emoções musicais e há muita gente nova (independentemente da idade) a contactar com a música do Zeca. Vejo com muita alegria um seu CD duplo nos tops nacionais, bem à beira de outros nomes bem menos apretechados em qualidade mas que qualquer sopeira (sem qualquer sentido depreciativo) bem conhece - e até adora...
Descobri que, afinal, Zeca Afonso era muito mais do que a famosa "Grândola Vila Morena": descobri mesmo que são dele muitas daquelas melodias que me acompanharam toda a minha vida e que, sem dar por ela, estou sempre a trautear em surdina.
Fiquei feliz por ter o Zeca no meu coração, mas não sabia. E fico feliz por saber que tem estado a chegar a mais pessoas como eu. E, finalmente, fico feliz por poder ser veículo do trabalho do Zeca, ao cantar com o Coro dos Pais dos Alunos do Conservatório.
Para acabar, só gostaria de lançar este desafio ao leitor destas letras: Sem qualquer preconceito experimente ouvir Zeca Afonso. Pode ser que dê por si a gostar...
Obrigado José Afonso. Sinto a tua falta.

4 comentários:

AntonioPacheco disse...

Fico satisfeito por ter aceite o desafio. Bom falar de José Afonso!?
deixa-me lisonjeado. Em 1984 quando ingressei no Conservatório Regional de Guimarães afirmei em alta voz, que José Afonso haveria de ser estudado nos Conservatórios...uma loucura...
orgulhosamente,
no Conservatório do Vale do Sousa é. Ouvir José Afonso é ouvir a voz da terra, a música,a poesia, arte na sua plenitude. «Não é possível conhecer o criador sem se conhecerem as condições em que nasceu e viveu num Portugal de medos institucionalizados e de silêncios impostos. Neste como noutros casos que marcaram a
a vida cultural e política deste século tudo explica tudo, não devendo, em circunstância alguma, tentar circunscrever-se José Afonso à mera prática da chamada "canção política". A sua dimensão e o alcance estético da sua obra ultrapassam largamente a simplicidade redutora desse rótulo» (Letria, p, 12, 2004).
É verdade que a sua obra cumpriu e cumpre uma função social intensa: é impressionante - ou tavez não - a actualidade da sua obra, não fosse esta pura arte. Mas é verdade que o criador é um produtor social e a obra de arte um produto social e como tal, espelha as ideologias e convicções do artista.
«José Afonso simboliza e sintetiza o profundo processo de ruptura e inovação que marca, definitivamente, a música portuguesa a partir do início da década de sessenta, introduzindo nela a qualidade poética, a imaginação melódica, o engenho interpretativo e o compromisso civico» (idem, p.11) Por udo isto parece-me necessário continuar a descobrir José Afonso.

AntonioPacheco disse...

Bibliogarfia:(esqueci-me)

Letria, J.J. e Fanha, J.(2004). «José Afonso: o que faz falta». Edição: Campo das Letras

nandacml disse...

Olá. Na realidade eu também não era uma apreciadora do Zeca Afonso, digo não era porque já sou.
Sou porque vamos aprendendo ao longo da nossa vida a apreciar coisas novas e ainda bem porque, o envolvimento que o Coro dos Pais do Conservatório do Vale do Sousa,nos trouxe e nos levou até à música de Zeca Afonso. Esta é só uma primeira etapa outros virão novas experiências também, e um enriquecimento cultural cada vez maior.
Estamos de parabéns.

AntonioPacheco disse...

José Afonso morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987. «O funeral realizou-se no dia seguinte com mais de 30 mil pessoas a prestarem-lhe a última homenagem percorrendo os 1300 metros do cortejo fúnebre entre a Escola Secundária de S. Julião, até ao seu último refúgio: o cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal, onde os seus restos mortais foram depositados na sepultura 1606 do quadro 19» (Pacheco, p.8, 2006).


Pacheco, A. (2006). «Do Choupal até à Lapa: o Elemento Popular na Músia de José Afonso». Edição: Conservatório do Vale do Sousa.